E, quando lá me achava
a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de
Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade
do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu
sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de
alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum
lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as
escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na
luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse
futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa,
estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes
contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.
Começo de Dom Casmurro (Machado de Assis)
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da
Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.
Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e
acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não
fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei
os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a
leitura e metesse os versos no bolso.
Fim de O Estrangeiro (Camus)
Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender
por que, ao fim de uma vida, arranjaram um ‘noivo’, porque recomeçara. Lá,
também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como
uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido
liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar
por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera
me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite
carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna
indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim,
senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse,
para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos
espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.
Começo de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)
Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano
Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para
conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e
taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se
precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos
pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e
para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.
Fim de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)
Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados
pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não
perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar a última
página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então
deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as
circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia
compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a
cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada
da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de
decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível
desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de
solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.
Começo de Grande Sertão:Veredas (Guimarães Rosa)
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto.
Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me
chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser —
se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo
que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo
feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram — era o demo.
O que vai pelo meio deles, é da mais suma importância. Não esqueçam...
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