segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Beijo e a arte


(Klimt)


(Rodin)


(Canova)


(Picasso)


(Magritte)


(Fragonard)


(Giotto)


(Doisneau)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poema Enjoadinho
(Vinicius de Moraes)

Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão. 
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
A recente campanha #meuamigosecreto, traz a público o que não é dito. Daí sua enorme importância. Segue abaixo uma pequena compilação de amigos que ninguém, em seu perfeito juízo, quer ter...

‪#‎meuamigosecreto acha q existe um "corpo pro verão"

#‎meuamigosecreto disse q as atitudes dele não iriam se repetir, mas por medo do coordenador e n por respeito a mim e às outras.

‪#‎meuamigosecreto disse que "pode até não parecer, mas mulher merece respeito"


‪#‎meuamigosecreto sempre diz pra namorada que ela tem um corpo que é feio e que ela tem sorte de ter ele do lado dela, porque afinal, quem vai querer uma menina gorda?

‪#‎meuamigosecreto disse: "com essas roupas curtinhas você está pedindo pra ser estuprada!"

‪#‎meuamigosecreto só se importa com o prazer dele. tanto faz se ela gozar ou não.

‪#‎meuamigosecreto afirma que mulheres tatuadas são mais escoladas e, portanto, mais susceptíveis a receberem cantadas.

‪#‎MeuAmigoSecreto é músico, "cool", caminha com a nata da música brasileira, mas pra ele mulher "dele" tem que deixar o jantar pronto pra quando ele chegar em casa. Amigo, cozinha não é só bateria e baixo, aprende a usar uma panela que é melhor.

‪#‎MeuAmigoSecreto "não é machista", mas... os projetos de vida dele são mais importantes que os dela. Ela pode deixar a vida de lado pra cuidar dele. Exceto no discurso, claro.

‪#‎meuamigosecreto achou que era com ele. não era, mas agora é.

‪#‎meuamigosecreto acha uma gracinha passar a mão nas meninas, mas avisa aos amigos que se tiver filha mulher vai viver trancada em casa, sob sua vigilância.

#‎meuamigosecreto ainda não entendeu que lugar de mulher é onde ela quiser estar e ponto final.

‪#‎meuamigosecreto acredita que existe garota para "transar" e garota para "casar".


‪#‎meuamigosecreto acha que o caráter de uma mulher é medido pelo comprimento da saia.

(Frases da linha do tempo do facebook de Isabela, Beatriz, Livinha, Marina, Clara e Adriane)
 Fica o convite para juntar-se a campanha. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015


“Primeiro de tudo”, ele disse, “Se você consegue aprender um simples truque, Scout, vai se dar melhor com todos os tipos de pessoas. Você nunca entende uma pessoa de verdade até o momento que considera as coisas do seu ponto de vista, até você subir em sua pele e andar nela”. Atticus Finch, O Sol é para todos (Harper Lee)


16 de Novembro de 2013, por seventhvoice

“ Um estudo inovador sugere que as pessoas com perturbações do espetro do autismo, tais como Asperger, não têm falta de empatia – pelo contrário, sentem as emoções dos outros com demasiada intensidade para conseguirem lidar com elas.”

“As pessoas com o Síndrome de Asperger, uma forma de autismo de alto funcionamento, são muitas vezes estereotipadas como sendo “totós” distantes que se isolam ou robóticos. Mas, e se o que parece frieza ao mundo exterior for uma resposta devido a estar assoberbado por emoções – um excesso de empatia e não falta dela?
Esta ideia faz sentido a muita gente que sofre de perturbações do espetro do autismo e às suas famílias. Também está alinhada com a teoria do “mundo intenso”, uma nova forma de pensar sobre a natureza do autismo.
Segundo Henry e Kamila Markram, do Swiss Federal Institute of Technology, em Lausanne, a teoria sugere que o problema fundamental nas perturbações do espetro do autismo não é uma deficiência social mas, pelo contrário, uma hipersensibilidade à experiencia, o que inclui um medo avassalador da resposta.
“Eu posso entrar numa sala e sentir o que toda a gente está a sentir”, diz Kamila Markram. “O problema é que me chega tudo mais depressa do que eu posso processar. Há aqueles que dizem que as pessoas autistas não sentem o suficiente. Nós dizemos exatamente o contrário: elas sentem em demasia.”
Praticamente toda a gente com perturbações do espetro do autismo (PEA) relatam diversos tipos de excesso de sensibilidade ou medo intenso. Os Markrams argumentam que as dificuldades sociais de quem tem perturbações do espetro do autismo têm origem na tentativa de lidar com um mundo onde alguém levantou o volume acima do 10 nos cinco sentidos (físicos) e em todos os sentimentos.
Se ao ouvir as vozes dos seus pais, quando estava sentado no berço, lhe parecesse estar a ouvir a Metal Machine Music do Lou Reed sob o efeito de ácido, provavelmente também iria preferir enrolar-se num canto e balançar-se.
Mas, é claro, este tipo de recolhimento e de comportamento auto-calmante – movimentos repetitivos; repetição de palavras ou actos; evitar o contacto ocular – interfere com o desenvolvimento social. Sem a experiencia que as outras crianças têm através das interações sociais normais, as crianças no espetro nunca chegam a aprender a compreender os sinais subtis.
Phil Schwarz, vice-presidente da Associação de Asperger’s, da Nova Inglaterra, acrescenta, “Eu acho que a maioria das pessoas com PEA sente-se emocionalmente empática e preocupa-se profundamente com o bem-estar dos outros.”
Portanto, porque é que tantas pessoas vêem falta de empatia com uma característica que define a perturbação do espetro do autismo?
O problema começa na complexidade da própria empatia. Um aspeto é simplesmente a capacidade de ver o mundo a partir da perspetiva do outro. Outra é mais emocional – a capacidade de imaginar o que o outro está a sentir e, como resultado, preocupar-se com a sua dor.
As crianças autistas tendem a desenvolver a primeira parte da empatia – que é chamada de “teoria da mente” – mais tarde que as outras crianças. Isto foi demonstrado num ensaio clássico. É pedido às crianças que observem dois fantoches, a Sally e a Anne. A Sally pega num berlinde e coloca-o num cesto, depois sai de cena. Enquanto está fora de cena, a Anne pega no berlinde e põe-no numa caixa. Pergunta-se então às crianças: onde é que a Sally vai procurar pelo berlinde dela quando voltar?
A maioria das crianças com 4 anos de idade sabe que a Sally não viu a Anne a mudar o berlinde de sítio e, por isso, acertam. Aos 10 ou 11 anos, as crianças com problemas no desenvolvimento que tenham QI verbal equivalente ao de uma criança de 3 anos, também acertam. Mas 80% das crianças autistas, com idades entre os 10 e os 11, adivinham que a Sally procurará na caixa, porque sabem onde está o berlinde e não se apercebem de que as outras pessoas não partilham do seu conhecimento.
É claro que se você não se aperceber de que os outros vêm e sentem coisas diferentes, provavelmente preocupar-se-á menos com eles.
É preciso muito mais tempo a uma criança autista do que a uma sem autismo, para se aperceber de que os outros têm experiencias e perspetivas diferentes – e o tempo que leva este desenvolvimento varia muito. Mas isso não significa que, uma vez que uma pessoa com perturbações do espetro do autismo se aperceba da experiencia do outro, não se preocupe ou não queira estabelecer relação.
Schwarz, da Associação de Asperger’s da Nova Inglaterra, diz que todos os adultos autistas que conhece, com mais de 18 anos, têm um melhor sentido do que os outros sabem do que o teste Sally/Anne sugere.
Quando se trata de não compreender o estado interno de mentes muito diferentes das nossas, a maioria das pessoas também não consegue lá chegar, diz Schwarz. “Mas a maioria não autista tem livre-trânsito porque, se assumir que a mente do outro funciona como a sua própria, tem muito maior probabilidade de estar certo”.
Portanto, quando, por exemplo, uma criança com Asperger’s fala incessantemente sobre os seus interesses intensos, não esta a dominar deliberadamente a conversa mas, simplesmente, não considera a possibilidade de poder haver uma diferença entre os seus interesses e os dos seus pares.
Em temos do aspeto da preocupação inerente à empatia apareceu, num website para pessoas com perturbações do espetro do autismo chamada WrongPlanet.net, uma discussão acesa que, aparentemente, suporta a teoria dos Markrams e que foi iniciada quando uma mãe escreveu a perguntar se a sua filha, que é empática mas socialmente imatura, poderia eventualmente ter Asperger’s.
“Se tenho alguma coisa, é uma luta por ter empatia em demasia,” diz um. “Se alguém está aborrecido, eu fico aborrecido. Há momentos na escola em que outros se portam mal e, se o professor ralha com eles, eu sinto-me como se me tivessem ralhado a mim.”
Outro diz, “Não faço ideia de quando ler dicas subtis, mas sou muito empático. Eu posso entrar numa sala e sentir o que todos estão a sentir e acho que isto é bastante comum no Síndroma de Asperger/autismo. O problema é que apanho com tudo mais depressa do que consigo processar.”
Estudos têm descoberto que, quando estão assoberbadas por sentimentos de empatia, as pessoas tendem a afastar-se. Quando a dor de alguém afeta outro profundamente pode ser mais difícil a este ajudar do que afastar-se.
Para as pessoas com perturbações do espetro do autismo, estes sentimentos empáticos podem ser tão intensos que se recolhem de uma forma que aparenta frieza e falta de cuidado.
“Estas crianças, na verdade, não são não-emotivas. Elas querem interagir – só que lhes é difícil”, diz Markram. “É muito triste, porque são pessoas muito capazes. Mas o mundo é intenso demais para elas e, por isso, têm de se recolher.”
Artigo escrito por Maia Szalavitz

https://seventhvoice.wordpress.com/2013/11/16/new-study-finds-that-individuals-with-aspergers-syndrome-dont-lack-empathy-in-fact-if-anything-they-empathize-too-much/

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Casuarina - Ponto de Vista (2011)



O jeito é manter o respeito e ponto final...





Saindo do treino de judo...véspera de uma competição para o colega 1...
Colega 1: Amanhã Deus vai me ajudar e eu vou conseguir...
Filho mais velho: Hum  hum....Deus não tem nada com isso.
Colega 1: Como assim ?
Filho mais velho: Você treinou ?
Colega 1: Treinei.
Filho mais velho: Então...
Colega 1: Mas Deus vai me ajudar... espere aí, você não acredita em Deus ? (com um ar meio surpreso, assustado, reprovador)
Filho mais velho: Não.
Colega 1: Não ?!!!! (o ar surpreso, assustado e reprovador assumiu proporções muito maiores) E você acredita em quê ?
Filho mais velho: Darwin, Galileu, Newton...
Colega 1: Então como é que surgiu o mundo ? (Quase invocou a Bíblia, mas foi interrompido a tempo)
Filho mais velho: Bem, de acordo com Einstein....(e avançou calma e pacientemente para uma explicação científica das equações, teoremas e princípios da física, prontamente interrompido pelo Colega 1)
Colega 1: Como pode ? Como é que você não acredita em Deus ? (repetiu a mesma pergunta umas quantas vezes até que a mãe do Filho mais velho aproximou-se e informou que em sua casa, a orientação era: cada um é livre para acreditar ou não no que quiser, respeitando sempre a vontade do próximo)
A conversa cessou. Filho mais velho, imediatamente iniciou um comentário sobre o novo filme do 007, caminhando calmamente para o carro. Colega 1 ainda parecia incomodado.
Filho mais velho não se alterou nem por um segundo. Defendeu suas ideias com empenho, mas sem tentar, nem por um instante, diminuir a crença do próximo. Como deve ser...


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

De meu compadre Reinofy Borges

COMPARAÇÕES
Tragédias não são comparáveis. Comparáveis são:
1) a dimensão que a mídia dá aos fatos
2) o alcance que a notícia tem
3) a origem da tragédia.
4) as consequências da tragédia

TEMPO REI - GILBERTO GIL

Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo.....



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Trailer: Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa



Na minha opinião, uma das melhores adaptações de Shakespeare para o cinema. Toshiro Mifune e Isuzu Yamada proporcionam interpretações magistrais. É a peça Escocesa em seu melhor...




Enquanto o sono não chega, vai contando como foi o dia.
Mãe, ví uma rã.
Tive uma briga de amizade com H. mas depois dei-lhe um abraço.
Não quero vender bolos com G. ele tira macacos do nariz.
A. pode dormir cá em casa no fim-de-semana ?
Não fui eu quem estragou o motor de busca do computador. Os modos do Minecraft não tem vírus.
Vou levar uma flor para D.
Posso lhe dar um abraço ?
Posso ligar a televisão ?
Vou a casa de banho e já volto.
Mãe, conta-me lá, como foi o teu dia ?
Mãe, estás acordada ?
- Estou.





  "Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar."

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 10 de novembro de 2015



Pensando em começos e fins...

Começo de Ana Karênina (Tolstoi)

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa si­tuação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles.  
    
 Fim de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

E, quando lá me achava a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.

Começo de Dom Casmurro (Machado de Assis)

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Fim de O Estrangeiro (Camus)

Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arranjaram um ‘noivo’, porque recomeçara. Lá, também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.

Começo de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo.

Fim de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)

Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.

Começo de Grande Sertão:Veredas (Guimarães Rosa)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de ho­mem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do cór­rego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mo­cidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, er­roso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebi­tado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: deter­mi­naram — era o demo.

O que vai pelo meio deles, é da mais suma importância. Não esqueçam...



Timoneiro Paulinho da viola

A genialidade discreta, simples, vendo assim, parece até que é fácil....Paulinho da Viola, um dos maiores da música. De sempre.



Era uma vez um menino. E era um menino desastrado. E que não sabia amarrar os atacadores. Um dia, sem querer (essas coisas acontecem muito aos meninos desastrados) estando diante de trabalhos muito lindos dos colegas, distraiu-se (também acontece sempre). Diante dos trabalhos molhados (fruto da tal distracção) imediatamente pôs-se aflito, mas nem por um segundo hesitou, chamou a Professora e contou o ocorrido. A Professora, envolta em outras preocupações e tarefas, disse-lhe que não fizesse caso, foi só um acidente. Mas, quando os colegas descobriram o trabalho assim desfeito, meio molhado, de imediato zangaram. Perguntavam-se quem poderia ter feito tamanho estrago e convocaram, com o Director de Turma, uma assembleia. Bradavam, discutiam entre si, e o menino desastrado permanecia silencioso, em um canto. O Director pediu que o autor do acontecido, se apresentasse. O menino, que não conseguia evitar a sinceridade, chamou o Director e contou o acontecido. O Director perguntou-lhe: Então ? Não chamaste um adulto ? Não avisaste a ninguém ? Naquele segundo, o menino pensou: Não posso dizer que contei a Professora e ela estava tão atarefada e ocupada que não fez caso, pois se assim o fizer, o Director vai brigar com ela. E não disse nada. Ficou em silêncio. Ouviu a repreensão, prometeu ser mais cuidadoso. Em casa, a mãe do menino desastrado levou um tempinho para entender (talvez porque seja mais desastrada que o filho - o fruto não cai longe da árvore) e matutando sozinha, pensou: Como é bom ter um menino desastrado...


Dica de meu amigo Sandro Lobo, vale a pena ler:

http://jornalggn.com.br/noticia/agressividade-da-direita-e-um-fenomeno-global-por-boaventura-sousa-santos#.VjodzVJWOoc.facebook

quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Um diploma na mão e muitas ideias na cabeça !!!


A VIDA É SONHO
É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


Pedro Calderón de La Barca

O trecho da peça reputa ao momento em que Segismundo, após ter vivido e desfrutado as pompas e honrarias do palácio do pai, dorme sob o efeito de uma poção. Quando desperta, está nas masmorras onde esteve toda a vida. Como príncipe herdeiro do trono, cometeu inúmeras acções condenáveis. O poder lhe corroeu. O carcereiro Clotaldo, para aliviá-lo, diz que a vida no palácio é que foi um sonho, a sua realidade era aquela. E que mesmo em sonhos, ele deveria ter sido um ser humano melhor, ao que Segismundo responde concordando no texto acima.
http://www.aia.org.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=208:entrevista-com-tony-attwood&catid=1:noticias&Itemid=189

Recomendo bastante o livro acima. Claro, objectivo e de grande ajuda para perceber um pouco mais do Asperger. Junto um link com uma entrevista do Drº Tony Attwood, psicólogo clínico na Austrália, autor do livro.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Cresci rodeada de música, livros e filmes. Minha mãe era pianista, professora de canto, regente. Meu pai nas horas vagas tenor nas inúmeras festas sacras tão comuns em Salvador, sobretudo nas novenas do Sr. do Bonfim e de Santo Amaro da Purificação. Meu tio tinha tantos livros em casa, que quase não sobrava espaço para a roupa no armário. os livros estavam espalhados por toda a casa, sala, quarto, em baixo da cama.Minha avó era fã incondicional das chanchadas da Atlântida, e me viciou de tal forma, que eu já não concebia um dia sem rir com Oscarito, Grande Otelo, José Lewgoy (um vilão maravilhoso) e companhia. Para não ficar desactualizada, minha avó guardava em um caderninho os nomes de todos os ministros a cada troca de governo. era fã de Eduardo Portela, soteropolitano como nós. Convencia minha mãe a deixar-me assistir filmes até "mais tarde", aliás, brigou por isso. E minha mãe, decidida a me apresentar a tela grande, escolheu a dedo um filme que me extasiasse. E aos cinco anos de idade, assisti Pele de Asno, de Jacques Demy, um filme de 1970, mas que estava sendo relançado em uma quinzena em homenagem ao cinema francês. Não entendi grande coisa, mas tinha música (que minha mãe amava) e Catherine Deneuve (de quem minha mãe era fã). E aquela tela enorme, enchendo-se de um colorido, parecia um caleidoscópio. Fiquei vidrada. E o termo é mesmo este. Todo dia queria ir ao cinema. Esse gosto seria em breve partilhado com outro: os livros. 
Os livros entraram em minha vida gradativamente. Primeiro Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato, Maria Clara Machado....como meu pai era um grande fã de Jorge Amado, caiu-me nas mãos Capitães da areia. Depois Mar morto. Aí veio a fase mistério Conan Doyle, Chandler, Agatha Christie...pelo meio a coleção Vagalume. Não demorou para eu dar mais uns saltos. A profusão de livros de meu tio - eram tantas as opções (de livros e temas) - levou-me a navegar por outras águas. Os gregos vieram, depois os italianos, franceses, portugueses, às vezes, lia dois, três livros ao mesmo tempo. Um completava o outro, um levava ao outro. E eu não conseguia parar. Queria viver só para ler e ver filmes. Então chegou a música. Tenho uma memória pequena de cantar uma música de Wilson Simonal com minha mãe. Vesti Azul. Em casa de minha avó brincava de roda ao som do piano que, ora minha mãe, ora minha tia tocavam. Ouvia-se muita ópera também, italiana, alemã...Renata Tebaldi, Maria Callas, Di Stefano, Caruso....Até que um dia, minha mãe me levou ao primeiro show da minha vida, acho que em 79. E em se tratando de minha mãe, ela não queria que fosse uma experiência menor, então, fomos ver Secos & Molhados. É, Secos & Molhados. E eu descobri a Música pela porta da frente.
Gostava que meus filhos tivessem conhecido a avó e a bisavó. O tio-avô. O avô. Então, tenho hoje a tremenda responsabilidade (e o imenso prazer) de mostrar esse mundo a eles. Um mundo que é vasto, vasto, vasto e não para de girar.....


Deus da Carnificina (2012) Trailer Oficial Legendado



Recomendo vivamente. Se tiverem oportunidade leiam também a peça da francesa Yasmina Reza.



http://stevesilberman.com/book/neurotribes/

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Nat king cole, Nature Boy


A belíssima música do filme do post abaixo, O menino do cabelo verde (The boy with green hair) de 1948, dirigido pelo excelente Joseph Losey, com  Dean Stockwell começando a carreira no cinema.
Há muitas versões da música, fico com esta do Nat King Cole.

O Menino de Cabelos Verdes (Tradução)

" Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime." 

E sublime é mesmo. Como não se extasiar diante de Tabacaria, 1928, Fernando Pessoa ?




A hora de dormir é sempre inusitada. Pesadelos, cérebro conversador, sombras que passam, barulhos esquisitos.....então recorremos a Garfield, a luz de presença, ao mano....quando não dá certo, a cama da mãe serve bem...