quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Mulheres.....


Alma Mahler


Lou Andreas Salomé


Leila Diniz


Camille Claudel


Mãe Menininha do Gantois


Marie Curie


Irmã Dulce


Adèle Hugo


Elza Soares




segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Beijo e a arte


(Klimt)


(Rodin)


(Canova)


(Picasso)


(Magritte)


(Fragonard)


(Giotto)


(Doisneau)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Poema Enjoadinho
(Vinicius de Moraes)

Filhos...  Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão. 
Filhos?  Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem shampoo
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
A recente campanha #meuamigosecreto, traz a público o que não é dito. Daí sua enorme importância. Segue abaixo uma pequena compilação de amigos que ninguém, em seu perfeito juízo, quer ter...

‪#‎meuamigosecreto acha q existe um "corpo pro verão"

#‎meuamigosecreto disse q as atitudes dele não iriam se repetir, mas por medo do coordenador e n por respeito a mim e às outras.

‪#‎meuamigosecreto disse que "pode até não parecer, mas mulher merece respeito"


‪#‎meuamigosecreto sempre diz pra namorada que ela tem um corpo que é feio e que ela tem sorte de ter ele do lado dela, porque afinal, quem vai querer uma menina gorda?

‪#‎meuamigosecreto disse: "com essas roupas curtinhas você está pedindo pra ser estuprada!"

‪#‎meuamigosecreto só se importa com o prazer dele. tanto faz se ela gozar ou não.

‪#‎meuamigosecreto afirma que mulheres tatuadas são mais escoladas e, portanto, mais susceptíveis a receberem cantadas.

‪#‎MeuAmigoSecreto é músico, "cool", caminha com a nata da música brasileira, mas pra ele mulher "dele" tem que deixar o jantar pronto pra quando ele chegar em casa. Amigo, cozinha não é só bateria e baixo, aprende a usar uma panela que é melhor.

‪#‎MeuAmigoSecreto "não é machista", mas... os projetos de vida dele são mais importantes que os dela. Ela pode deixar a vida de lado pra cuidar dele. Exceto no discurso, claro.

‪#‎meuamigosecreto achou que era com ele. não era, mas agora é.

‪#‎meuamigosecreto acha uma gracinha passar a mão nas meninas, mas avisa aos amigos que se tiver filha mulher vai viver trancada em casa, sob sua vigilância.

#‎meuamigosecreto ainda não entendeu que lugar de mulher é onde ela quiser estar e ponto final.

‪#‎meuamigosecreto acredita que existe garota para "transar" e garota para "casar".


‪#‎meuamigosecreto acha que o caráter de uma mulher é medido pelo comprimento da saia.

(Frases da linha do tempo do facebook de Isabela, Beatriz, Livinha, Marina, Clara e Adriane)
 Fica o convite para juntar-se a campanha. 


quarta-feira, 18 de novembro de 2015


“Primeiro de tudo”, ele disse, “Se você consegue aprender um simples truque, Scout, vai se dar melhor com todos os tipos de pessoas. Você nunca entende uma pessoa de verdade até o momento que considera as coisas do seu ponto de vista, até você subir em sua pele e andar nela”. Atticus Finch, O Sol é para todos (Harper Lee)


16 de Novembro de 2013, por seventhvoice

“ Um estudo inovador sugere que as pessoas com perturbações do espetro do autismo, tais como Asperger, não têm falta de empatia – pelo contrário, sentem as emoções dos outros com demasiada intensidade para conseguirem lidar com elas.”

“As pessoas com o Síndrome de Asperger, uma forma de autismo de alto funcionamento, são muitas vezes estereotipadas como sendo “totós” distantes que se isolam ou robóticos. Mas, e se o que parece frieza ao mundo exterior for uma resposta devido a estar assoberbado por emoções – um excesso de empatia e não falta dela?
Esta ideia faz sentido a muita gente que sofre de perturbações do espetro do autismo e às suas famílias. Também está alinhada com a teoria do “mundo intenso”, uma nova forma de pensar sobre a natureza do autismo.
Segundo Henry e Kamila Markram, do Swiss Federal Institute of Technology, em Lausanne, a teoria sugere que o problema fundamental nas perturbações do espetro do autismo não é uma deficiência social mas, pelo contrário, uma hipersensibilidade à experiencia, o que inclui um medo avassalador da resposta.
“Eu posso entrar numa sala e sentir o que toda a gente está a sentir”, diz Kamila Markram. “O problema é que me chega tudo mais depressa do que eu posso processar. Há aqueles que dizem que as pessoas autistas não sentem o suficiente. Nós dizemos exatamente o contrário: elas sentem em demasia.”
Praticamente toda a gente com perturbações do espetro do autismo (PEA) relatam diversos tipos de excesso de sensibilidade ou medo intenso. Os Markrams argumentam que as dificuldades sociais de quem tem perturbações do espetro do autismo têm origem na tentativa de lidar com um mundo onde alguém levantou o volume acima do 10 nos cinco sentidos (físicos) e em todos os sentimentos.
Se ao ouvir as vozes dos seus pais, quando estava sentado no berço, lhe parecesse estar a ouvir a Metal Machine Music do Lou Reed sob o efeito de ácido, provavelmente também iria preferir enrolar-se num canto e balançar-se.
Mas, é claro, este tipo de recolhimento e de comportamento auto-calmante – movimentos repetitivos; repetição de palavras ou actos; evitar o contacto ocular – interfere com o desenvolvimento social. Sem a experiencia que as outras crianças têm através das interações sociais normais, as crianças no espetro nunca chegam a aprender a compreender os sinais subtis.
Phil Schwarz, vice-presidente da Associação de Asperger’s, da Nova Inglaterra, acrescenta, “Eu acho que a maioria das pessoas com PEA sente-se emocionalmente empática e preocupa-se profundamente com o bem-estar dos outros.”
Portanto, porque é que tantas pessoas vêem falta de empatia com uma característica que define a perturbação do espetro do autismo?
O problema começa na complexidade da própria empatia. Um aspeto é simplesmente a capacidade de ver o mundo a partir da perspetiva do outro. Outra é mais emocional – a capacidade de imaginar o que o outro está a sentir e, como resultado, preocupar-se com a sua dor.
As crianças autistas tendem a desenvolver a primeira parte da empatia – que é chamada de “teoria da mente” – mais tarde que as outras crianças. Isto foi demonstrado num ensaio clássico. É pedido às crianças que observem dois fantoches, a Sally e a Anne. A Sally pega num berlinde e coloca-o num cesto, depois sai de cena. Enquanto está fora de cena, a Anne pega no berlinde e põe-no numa caixa. Pergunta-se então às crianças: onde é que a Sally vai procurar pelo berlinde dela quando voltar?
A maioria das crianças com 4 anos de idade sabe que a Sally não viu a Anne a mudar o berlinde de sítio e, por isso, acertam. Aos 10 ou 11 anos, as crianças com problemas no desenvolvimento que tenham QI verbal equivalente ao de uma criança de 3 anos, também acertam. Mas 80% das crianças autistas, com idades entre os 10 e os 11, adivinham que a Sally procurará na caixa, porque sabem onde está o berlinde e não se apercebem de que as outras pessoas não partilham do seu conhecimento.
É claro que se você não se aperceber de que os outros vêm e sentem coisas diferentes, provavelmente preocupar-se-á menos com eles.
É preciso muito mais tempo a uma criança autista do que a uma sem autismo, para se aperceber de que os outros têm experiencias e perspetivas diferentes – e o tempo que leva este desenvolvimento varia muito. Mas isso não significa que, uma vez que uma pessoa com perturbações do espetro do autismo se aperceba da experiencia do outro, não se preocupe ou não queira estabelecer relação.
Schwarz, da Associação de Asperger’s da Nova Inglaterra, diz que todos os adultos autistas que conhece, com mais de 18 anos, têm um melhor sentido do que os outros sabem do que o teste Sally/Anne sugere.
Quando se trata de não compreender o estado interno de mentes muito diferentes das nossas, a maioria das pessoas também não consegue lá chegar, diz Schwarz. “Mas a maioria não autista tem livre-trânsito porque, se assumir que a mente do outro funciona como a sua própria, tem muito maior probabilidade de estar certo”.
Portanto, quando, por exemplo, uma criança com Asperger’s fala incessantemente sobre os seus interesses intensos, não esta a dominar deliberadamente a conversa mas, simplesmente, não considera a possibilidade de poder haver uma diferença entre os seus interesses e os dos seus pares.
Em temos do aspeto da preocupação inerente à empatia apareceu, num website para pessoas com perturbações do espetro do autismo chamada WrongPlanet.net, uma discussão acesa que, aparentemente, suporta a teoria dos Markrams e que foi iniciada quando uma mãe escreveu a perguntar se a sua filha, que é empática mas socialmente imatura, poderia eventualmente ter Asperger’s.
“Se tenho alguma coisa, é uma luta por ter empatia em demasia,” diz um. “Se alguém está aborrecido, eu fico aborrecido. Há momentos na escola em que outros se portam mal e, se o professor ralha com eles, eu sinto-me como se me tivessem ralhado a mim.”
Outro diz, “Não faço ideia de quando ler dicas subtis, mas sou muito empático. Eu posso entrar numa sala e sentir o que todos estão a sentir e acho que isto é bastante comum no Síndroma de Asperger/autismo. O problema é que apanho com tudo mais depressa do que consigo processar.”
Estudos têm descoberto que, quando estão assoberbadas por sentimentos de empatia, as pessoas tendem a afastar-se. Quando a dor de alguém afeta outro profundamente pode ser mais difícil a este ajudar do que afastar-se.
Para as pessoas com perturbações do espetro do autismo, estes sentimentos empáticos podem ser tão intensos que se recolhem de uma forma que aparenta frieza e falta de cuidado.
“Estas crianças, na verdade, não são não-emotivas. Elas querem interagir – só que lhes é difícil”, diz Markram. “É muito triste, porque são pessoas muito capazes. Mas o mundo é intenso demais para elas e, por isso, têm de se recolher.”
Artigo escrito por Maia Szalavitz

https://seventhvoice.wordpress.com/2013/11/16/new-study-finds-that-individuals-with-aspergers-syndrome-dont-lack-empathy-in-fact-if-anything-they-empathize-too-much/

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Casuarina - Ponto de Vista (2011)



O jeito é manter o respeito e ponto final...





Saindo do treino de judo...véspera de uma competição para o colega 1...
Colega 1: Amanhã Deus vai me ajudar e eu vou conseguir...
Filho mais velho: Hum  hum....Deus não tem nada com isso.
Colega 1: Como assim ?
Filho mais velho: Você treinou ?
Colega 1: Treinei.
Filho mais velho: Então...
Colega 1: Mas Deus vai me ajudar... espere aí, você não acredita em Deus ? (com um ar meio surpreso, assustado, reprovador)
Filho mais velho: Não.
Colega 1: Não ?!!!! (o ar surpreso, assustado e reprovador assumiu proporções muito maiores) E você acredita em quê ?
Filho mais velho: Darwin, Galileu, Newton...
Colega 1: Então como é que surgiu o mundo ? (Quase invocou a Bíblia, mas foi interrompido a tempo)
Filho mais velho: Bem, de acordo com Einstein....(e avançou calma e pacientemente para uma explicação científica das equações, teoremas e princípios da física, prontamente interrompido pelo Colega 1)
Colega 1: Como pode ? Como é que você não acredita em Deus ? (repetiu a mesma pergunta umas quantas vezes até que a mãe do Filho mais velho aproximou-se e informou que em sua casa, a orientação era: cada um é livre para acreditar ou não no que quiser, respeitando sempre a vontade do próximo)
A conversa cessou. Filho mais velho, imediatamente iniciou um comentário sobre o novo filme do 007, caminhando calmamente para o carro. Colega 1 ainda parecia incomodado.
Filho mais velho não se alterou nem por um segundo. Defendeu suas ideias com empenho, mas sem tentar, nem por um instante, diminuir a crença do próximo. Como deve ser...


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

De meu compadre Reinofy Borges

COMPARAÇÕES
Tragédias não são comparáveis. Comparáveis são:
1) a dimensão que a mídia dá aos fatos
2) o alcance que a notícia tem
3) a origem da tragédia.
4) as consequências da tragédia

TEMPO REI - GILBERTO GIL

Não se iludam

Não me iludo

Tudo agora mesmo pode estar por um segundo.....



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Trailer: Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa



Na minha opinião, uma das melhores adaptações de Shakespeare para o cinema. Toshiro Mifune e Isuzu Yamada proporcionam interpretações magistrais. É a peça Escocesa em seu melhor...




Enquanto o sono não chega, vai contando como foi o dia.
Mãe, ví uma rã.
Tive uma briga de amizade com H. mas depois dei-lhe um abraço.
Não quero vender bolos com G. ele tira macacos do nariz.
A. pode dormir cá em casa no fim-de-semana ?
Não fui eu quem estragou o motor de busca do computador. Os modos do Minecraft não tem vírus.
Vou levar uma flor para D.
Posso lhe dar um abraço ?
Posso ligar a televisão ?
Vou a casa de banho e já volto.
Mãe, conta-me lá, como foi o teu dia ?
Mãe, estás acordada ?
- Estou.





  "Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar."

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 10 de novembro de 2015



Pensando em começos e fins...

Começo de Ana Karênina (Tolstoi)

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira. Tudo era confusão na casa dos Oblónski. A esposa ficara sabendo que o marido mantinha um caso com a ex-governanta francesa e lhe comunicara que não podia viver com ele sob o mesmo teto. Essa si­tuação já durava três dias e era um tormento para os cônjuges, para todos os familiares e para os criados. Todos, familiares e criados, achavam que não fazia sentido morarem os dois juntos e que pessoas reunidas por acaso em qualquer hospedaria estariam mais ligadas entre si do que eles.  
    
 Fim de O Grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

E, quando lá me achava a meditar sobre o velho, desconhecido mundo, lembrei-me da surpresa de Gatsby, ao divisar pela primeira vez, a luz verde e existente na extremidade do ancoradouro de Daisy. Ele viera de longe, até aquele relvado azul, e seu sonho de ter-lhe parecido tão próximo, que dificilmente poderia deixar de alcança-lo. Não sabia que seu sonho já havia ficado para trás, perdido em algum lugar, na vasta obscuridade que se estendia para além da cidade, onde as escuras campinas da república se estendiam sob a noite. Gatsby acreditou na luz verde, no orgiástico futuro, que ano após ano, se afastava de nós. Esse futuro nos iludira, mas não importava: amanhã correremos mais depressa, estenderemos mais os braços… E, uma bela manhã… E assim prosseguimos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente para o passado.

Começo de Dom Casmurro (Machado de Assis)

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Fim de O Estrangeiro (Camus)

Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arranjaram um ‘noivo’, porque recomeçara. Lá, também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.

Começo de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo.

Fim de Cem anos de solidão (Gabriel Garcia Márquez)

Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.

Começo de Grande Sertão:Veredas (Guimarães Rosa)

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de ho­mem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do cór­rego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mo­cidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, er­roso, os olhos de nem ser — se viu —; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebi­tado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: deter­mi­naram — era o demo.

O que vai pelo meio deles, é da mais suma importância. Não esqueçam...



Timoneiro Paulinho da viola

A genialidade discreta, simples, vendo assim, parece até que é fácil....Paulinho da Viola, um dos maiores da música. De sempre.



Era uma vez um menino. E era um menino desastrado. E que não sabia amarrar os atacadores. Um dia, sem querer (essas coisas acontecem muito aos meninos desastrados) estando diante de trabalhos muito lindos dos colegas, distraiu-se (também acontece sempre). Diante dos trabalhos molhados (fruto da tal distracção) imediatamente pôs-se aflito, mas nem por um segundo hesitou, chamou a Professora e contou o ocorrido. A Professora, envolta em outras preocupações e tarefas, disse-lhe que não fizesse caso, foi só um acidente. Mas, quando os colegas descobriram o trabalho assim desfeito, meio molhado, de imediato zangaram. Perguntavam-se quem poderia ter feito tamanho estrago e convocaram, com o Director de Turma, uma assembleia. Bradavam, discutiam entre si, e o menino desastrado permanecia silencioso, em um canto. O Director pediu que o autor do acontecido, se apresentasse. O menino, que não conseguia evitar a sinceridade, chamou o Director e contou o acontecido. O Director perguntou-lhe: Então ? Não chamaste um adulto ? Não avisaste a ninguém ? Naquele segundo, o menino pensou: Não posso dizer que contei a Professora e ela estava tão atarefada e ocupada que não fez caso, pois se assim o fizer, o Director vai brigar com ela. E não disse nada. Ficou em silêncio. Ouviu a repreensão, prometeu ser mais cuidadoso. Em casa, a mãe do menino desastrado levou um tempinho para entender (talvez porque seja mais desastrada que o filho - o fruto não cai longe da árvore) e matutando sozinha, pensou: Como é bom ter um menino desastrado...


Dica de meu amigo Sandro Lobo, vale a pena ler:

http://jornalggn.com.br/noticia/agressividade-da-direita-e-um-fenomeno-global-por-boaventura-sousa-santos#.VjodzVJWOoc.facebook

quinta-feira, 5 de novembro de 2015


Um diploma na mão e muitas ideias na cabeça !!!


A VIDA É SONHO
É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


Pedro Calderón de La Barca

O trecho da peça reputa ao momento em que Segismundo, após ter vivido e desfrutado as pompas e honrarias do palácio do pai, dorme sob o efeito de uma poção. Quando desperta, está nas masmorras onde esteve toda a vida. Como príncipe herdeiro do trono, cometeu inúmeras acções condenáveis. O poder lhe corroeu. O carcereiro Clotaldo, para aliviá-lo, diz que a vida no palácio é que foi um sonho, a sua realidade era aquela. E que mesmo em sonhos, ele deveria ter sido um ser humano melhor, ao que Segismundo responde concordando no texto acima.
http://www.aia.org.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=208:entrevista-com-tony-attwood&catid=1:noticias&Itemid=189

Recomendo bastante o livro acima. Claro, objectivo e de grande ajuda para perceber um pouco mais do Asperger. Junto um link com uma entrevista do Drº Tony Attwood, psicólogo clínico na Austrália, autor do livro.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Cresci rodeada de música, livros e filmes. Minha mãe era pianista, professora de canto, regente. Meu pai nas horas vagas tenor nas inúmeras festas sacras tão comuns em Salvador, sobretudo nas novenas do Sr. do Bonfim e de Santo Amaro da Purificação. Meu tio tinha tantos livros em casa, que quase não sobrava espaço para a roupa no armário. os livros estavam espalhados por toda a casa, sala, quarto, em baixo da cama.Minha avó era fã incondicional das chanchadas da Atlântida, e me viciou de tal forma, que eu já não concebia um dia sem rir com Oscarito, Grande Otelo, José Lewgoy (um vilão maravilhoso) e companhia. Para não ficar desactualizada, minha avó guardava em um caderninho os nomes de todos os ministros a cada troca de governo. era fã de Eduardo Portela, soteropolitano como nós. Convencia minha mãe a deixar-me assistir filmes até "mais tarde", aliás, brigou por isso. E minha mãe, decidida a me apresentar a tela grande, escolheu a dedo um filme que me extasiasse. E aos cinco anos de idade, assisti Pele de Asno, de Jacques Demy, um filme de 1970, mas que estava sendo relançado em uma quinzena em homenagem ao cinema francês. Não entendi grande coisa, mas tinha música (que minha mãe amava) e Catherine Deneuve (de quem minha mãe era fã). E aquela tela enorme, enchendo-se de um colorido, parecia um caleidoscópio. Fiquei vidrada. E o termo é mesmo este. Todo dia queria ir ao cinema. Esse gosto seria em breve partilhado com outro: os livros. 
Os livros entraram em minha vida gradativamente. Primeiro Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato, Maria Clara Machado....como meu pai era um grande fã de Jorge Amado, caiu-me nas mãos Capitães da areia. Depois Mar morto. Aí veio a fase mistério Conan Doyle, Chandler, Agatha Christie...pelo meio a coleção Vagalume. Não demorou para eu dar mais uns saltos. A profusão de livros de meu tio - eram tantas as opções (de livros e temas) - levou-me a navegar por outras águas. Os gregos vieram, depois os italianos, franceses, portugueses, às vezes, lia dois, três livros ao mesmo tempo. Um completava o outro, um levava ao outro. E eu não conseguia parar. Queria viver só para ler e ver filmes. Então chegou a música. Tenho uma memória pequena de cantar uma música de Wilson Simonal com minha mãe. Vesti Azul. Em casa de minha avó brincava de roda ao som do piano que, ora minha mãe, ora minha tia tocavam. Ouvia-se muita ópera também, italiana, alemã...Renata Tebaldi, Maria Callas, Di Stefano, Caruso....Até que um dia, minha mãe me levou ao primeiro show da minha vida, acho que em 79. E em se tratando de minha mãe, ela não queria que fosse uma experiência menor, então, fomos ver Secos & Molhados. É, Secos & Molhados. E eu descobri a Música pela porta da frente.
Gostava que meus filhos tivessem conhecido a avó e a bisavó. O tio-avô. O avô. Então, tenho hoje a tremenda responsabilidade (e o imenso prazer) de mostrar esse mundo a eles. Um mundo que é vasto, vasto, vasto e não para de girar.....


Deus da Carnificina (2012) Trailer Oficial Legendado



Recomendo vivamente. Se tiverem oportunidade leiam também a peça da francesa Yasmina Reza.



http://stevesilberman.com/book/neurotribes/

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Nat king cole, Nature Boy


A belíssima música do filme do post abaixo, O menino do cabelo verde (The boy with green hair) de 1948, dirigido pelo excelente Joseph Losey, com  Dean Stockwell começando a carreira no cinema.
Há muitas versões da música, fico com esta do Nat King Cole.

O Menino de Cabelos Verdes (Tradução)

" Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime." 

E sublime é mesmo. Como não se extasiar diante de Tabacaria, 1928, Fernando Pessoa ?




A hora de dormir é sempre inusitada. Pesadelos, cérebro conversador, sombras que passam, barulhos esquisitos.....então recorremos a Garfield, a luz de presença, ao mano....quando não dá certo, a cama da mãe serve bem...

sábado, 31 de outubro de 2015


O menino e a menina de Guillermo Del Toro. A Espinha do Diabo e O Labirinto do Fauno.
"Conviver com os outros é uma tortura para mim. E eu tenho os outros em mim. Mesmo longe deles sou forçado ao seu convívio. Sozinho, multidões me cercam. Não tenho para onde fugir, a não ser que fuja de mim."

Fernando Pessoa e a sua convivência não pacífica com seus eus.Por muitos anos, Álvaro de Campos foi meu heterónimo de eleição. Hoje, gosto do Pessoa na pessoa.

Francisco sempre me diz que não consegue dormir porque o cérebro conversa com ele.....Longas conversas noite adentro.....

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

5 Filmes para crianças e adultos:

O sítio das coisas selvagens


A noiva cadáver


Coraline


Frankenweenie



O Fantástico Sr. Raposo


Não existe nada mais estranho e espinhoso do que a relação entre pessoas que só se conhecem de vista - que diariamente, mesmo hora a hora, se encontram, se observam e que têm assim de manter, sem cumprimentos e sem palavras, a aparência de desconhecimento indiferente, devido ao rigor dos costumes ou a caprichos pessoais. Entre elas existe inquietação e curiosidade exacerbada, a histeria da necessidade insatisfeita, anormalmente recalcada, de conhecimento e comunicação e sobretudo também uma forma de consideração tensa. Pois o ser humano ama e respeita o outro ser humano enquanto não está em posição de o julgar e o desejo é produto de um conhecimento insuficiente. 
Thomas Mann, em sua novela publicada pela primeira vez em 1912, Morte em Veneza

Francisco e suas preocupações diárias...

Mãe, vou lhe dar vinte e cinco euros para as compras do mês
 - Não precisa Francisco, mesmo assim, muito obrigada.
Mas eu quero.
 - Mas filho, não há necessidade...
Mas eu quero ajudar.
 - Está bem, fico agradecida !
Mas cinco euros são para eu comprar o que eu quiser, ok ?


 1.    Síndrome de Asperger
 A Síndrome de Asperger faz parte do aspecto autista, apenas tornando-se diferente do autismo clássico porque não apresenta nenhum atraso ou retardo global no que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo ou na linguagem do indivíduo.
          Essa síndrome é mais comum no sexo masculino, sendo este chegando aproximadamente a ser atingido quatro vezes mais do que o feminino. A SA foi exposta no ano de 1920, pela primeira vez, por Schucharewa, neurologista da Rússia, que aponta essas pessoas como indivíduos que apresentam persistência em se afastarem das relações sociais. No ano de 1944, um pediatra austríaco, chamado de Hans Asperger, divulgou alguns casos de psicopatia autística infantil. Posteriormente, no ano de 1981, L. Wing, uma psiquiatra norte americana definiu esta pertubação com SA para homenagear Hans Asperger. Porém, só foi reconhecida mais tarde, como critério de diagnóstico no DSM – IV ( Manual Diagnóstico e Estatístico de Desordens Mentais ), no ano de 1994.
           O novo critério do DSM – IV para diagnóstico de SA, inclui a presença de:
 Particularidades qualitativas na interação social, envolvendo alguns ou todos dos critérios:
·         Uso de peculiaridade no comportamento não-verbal para regular a interação social;
·         Falha no desenvolvimento de relações com pares da sua idade;
·         Falta de interesse espontâneo em dividir experiências com outros;
·         Falta de reciprocidade emocional e social.
Padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento, interesses e atividades envolvendo:
·         Preocupação com um ou mais padrões de interesse restritos e estereotipados;
·         Inflexibilidade a rotinas e rituais não funcionais específicos;
·         Maneirismos motores estereotipados ou repetitivos, ou preocupação com partes de objetos.
            De acordo com o DSM – IV os critérios para se poder diagnosticar a Síndrome de Asperger são:
            Critérios Diagnósticos para F84. 5 – 299.80 Transtorno de Asperger
A.    Prejuízo qualitativo na interação social, manifestado por pelo menos dois dos seguintes quesitos:
(1)   Prejuízo acentuado no uso de múltiplos comportamentos não-verbais, tais como contato visual direto, expressão facial, posturas corporais e gestos para regular a interação social.
(2)   Fracasso para desenvolver relacionamentos apropriados ao nível de desenvolvimento com seus pares.
(3)   Ausência de tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas (por ex. deixar de mostrar, trazer ou apontar objetos de interesse a outras pessoas).
(4)   Falta de reciprocidade social ou emocional.
 B.     Padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamentos, interesses e atividades, manifestados por pelo menos um dos seguintes quesitos;
(1)   Insistente preocupação com um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesses, anormal em intensidade ou foco.
(2)   Adesão aparentemente inflexível a rotinas e rituais específicos e não funcionais.
(3)   Maneirismos motores estereotipados e repetitivos (por ex., dar pancadinhas ou torcer as mãos ou os dedos, ou movimentos complexos de todo o corpo).
(4)   Insistente preocupação com partes de objetos.
C.     A perturbação causa prejuízo clinicamente significativo nas áreas social e ocupacional ou outras áreas importantes de funcionamento.
D.    Não existe um atraso geral clinicamente significativo na linguagem (por ex., palavras isoladas são usadas aos 2 anos, frases comunicativas são usadas aos 3 anos).
E.     Não existe um atraso clinicamente significativo cognitivo ou no desenvolvimento de habilidades de auto-ajuda apropriadas à idade, comportamento adaptativo (outro que não na interação social) e curiosidade acerca do ambiente na infância.
F.      Não são satisfatórios os critérios para um outro Transtorno Invasivo do Desenvolvimento ou Esquizofrenia.
 Mesmo que os sintomas do comportamento dessas crianças com SA estejam bem definidos, pouco se sabe sobre as raízes neurobiológicas dessa desordem. Segundo estudos realizados, os indivíduos com Autismo apresentam anormalidades nos lobos frontais e parietais.
No decorrer desse tempo os termos que utilizaram para definir essa síndrome foram muitos, chegando até a criar grande confusão entre os pais e educadores.
Essa síndrome se caracteriza por apresentar desvios e anormalidades em alguns aspectos do desenvolvimento, como; interação social, uso da linguagem para a comunicação e algumas características repetitivas ou perserverativas sobre um limitado número, porém bastante intenso, de interesses. Os indivíduos não-autistas conseguem captar informações cognitivas e emocionais de outras pessoas simplesmente através de algumas pistas deixadas no ambiente social ou em traços em sua expressão facial, na linguagem corporal, no humor ou na ironia. Enquanto que os indivíduos com SA não apresentam essa capacidade, sendo assim não conseguem reconhecer nem entender os pensamentos e sentimentos dos demais, então são incapazes de prever o que se pode esperar dos demais ou o que esses podem esperar deles. Dessa forma, são levadas a apresentar comportamentos impróprios e anti-sociais.
Mesmo tendo características semelhantes ao Autismo, os indivíduos com SA na maioria das vezes têm habilidades cognitivas elevadas.
A SA é conceitualizada como a disfunção mais ligeira do aspecto da perturbação autista. Neste conceito, Van Krevelen (cit in Wing, 1991), refere que ao nível mais grave do mesmo, se encontram crianças que “vivem no seu próprio mundo”, enquanto que no nível mais discreto “vivem no nosso mundo, mas à sua maneira”.
As crianças com Síndrome de Asperger até podem procurar se inteirar socialmente, mas sempre apresentarão dificuldades em interpretar e aprender as capacidades de interação social e emocional com os outros.

Assim, podemos perceber que nem todas as crianças com SA agem igualmente. Do mesmo jeito, sendo menino ou menina, cada crianaç tem sua maneira própria e singular e os sintomas dessa síndrome são apresentados de maneira específica para cada indivíduo. Portanto, não adianta pensar que existe uma receita pronta para vivenciar com essas crianças em sala de aula, do mesmo modo que não existe uma metodologia ideal para ser usada com crianças que não apresentam Síndrome de Asperger.
2.      Estratégias de intervenções em sala de aula com portadores da Síndrome de Asperger
Diante do quadro apresentado por um indivíduo com SA, não existe uma fórmula exata para lidar com crianças e jovens com Síndrome de Asperger em sala de aula, pois cada indivíduo com SA tem suas características típicas da síndrome, porém manifestadas de forma individual e específica em cada uma delas, mas percebe-se que podem ser usadas algumas estratégias que serão úteis e ajudarão bastante a dar respostas ás necessidades educativas especiais destas crianças. É importante perceber que serão apresentadas algumas sugestões de uma forma geral, portanto deve ser adaptado às necessidades únicas de cada indivíduo portador dessa síndrome.
De acordo com os estudos realizados a cerca da SA, é bastante relevante destacar algumas intervenções realizadas em sala de aula.
Confrontadas com mudanças, mesmo sendo rápidas, as crianças com SA ficam bastante ansiosas, altamente sensíveis. É importante que o professor:
·         Evite as mudanças, principalmente as surpresas, pois as crianças com SA precisam ser preparadas com antecedência para qualquer atividade que vá alterar o horário ou mudar o hábito, mesmo que essa mudança seja mínima;
·         Ofereça sempre um ambiente seguro e previsível;
·         As rotinas no dia-a-dia devem ser sólidas, pois as crianças com SA precisam compreender essa rotina e saber sempre o que a espera;
·         Evite momentos que elas possam sentir medo do desconhecido, dos novos professores, novas turmas, escola, tão cedo quanto possível e assim evitam-se as preocupações que geram angústia;
As crianças com SA apresentam muitas dificuldades em interagir socialmente. Demonstram pouco jeito para começar e até mesmo manter uma conversa, tendo assim dificuldade na comunicação. Elas falam para as pessoas, mas não com elas. Frequentemente desejam fazer parte do mundo social, no entanto, não sabem como se integra. É necessário que:
·         A escola proteja essa criança das brincadeiras inadequadas;
·         Quando os colegas têm idades adequadas a entender, é importante que o professor explique as características da criança com SA e sempre elogie os colegas quando estes as tratam com respeito, sendo assim, se evita o isolamento da criança;
·         Vivencie situações onde as crianças com SA apresentem suas habilidades cognitivas em pequenos grupos, e possam ser vistas pelos colegas como talentosas, favorecendo assim uma maior probabilidade de serem aceitas;
·         As crianças com SA, em sua maioria, desejam ter amigos, mas não sabem como fazê-lo. Então, elas precisam ser orientadas de forma apropriada a reagir em situações diferentes. Devem-se criar momentos onde o “faz - de- conta” sirva de exemplos para que a criança com SA entenda as regras que as outras crianças entendem de forma intuitiva;
·         Quando uma criança com SA, mesmo sem intenção, insulta, magoa, deve ser explicado a ela que esse comportamento é inapropriado e qual deveria ser o jeito correto de agir, pois a crianças com SA não tem noção do que é as emoções dos outros;
·         Quando os estudantes são mais velhos, o professor pode adotar para o aluno com SA o que chamamos de “amigo tutor”, que é aquele amigo da mesma classe, sensível às dificuldades do estudante com SA e que vai sentar próximo e tentar ajudá-lo nas atividades escolares;
·         É característico que a criança com SA apresente tendência para se retrair, portanto o professor precisa criar situações de envolvimento com os outros, favorecendo a socialização e evitando assim que ela passe todo o tempo solitário nos seus interesses obsessivos por determinados assuntos.
            As crianças com SA produzem longas lições, quando estas são das suas áreas de interesses, repetem perguntas sobre determinados assuntos, dificilmente elas mudam de opinião, seguem suas próprias idéias e na maioria das vezes se recusam a aprender matérias que não faz parte do seu grupo restrito de interesses. Então:
·         Não permita que crianças com SA persistam sobre assuntos de interesses isolados. Quando isso acontecer limite este comportamento e especifique pra ela um tempo, durante o dia, que ela possa conversar sobre esses assuntos, desta forma ela vai aprender a se controlar, pois isso fará parte da sua rotina diária;
 A utilização de um reforço positivo, com o intuito de se obter um determinado comportamento, é uma estratégia importante para ajudar as crianças com SA (Dewey, 1991).
·         Estas crianças precisam também ser elogiadas quando apresentam comportamentos sociais adequados, por mais simples que sejam;
·         Determinadas crianças com SA se recusam a realizar trabalhos que não sejam da sua área de interesses, portanto é necessário deixar claro para elas que não é ela que manda e que é preciso que ela siga regras específicas. Porém, simultaneamente, o professor também pode fazer concessões, permitindo assim que ela siga os seus interesses em determinadas condições;
·         Poderá oferecer tarefas à criança com SA, relacionadas com o tema de seu interesse e que tenha haver com a área de conhecimento em estudo, por exemplo, se a criança tem interesse pela boneca da Emília, ofereça-lhe exercícios gramaticais, situações problemas de matemática, ortografia, textos para leituras sobre a Emília;
·         Utilize os interesses obsessivos da criança com SA para favorecer um alargamento no seu repertório de interesses. Como exemplo, numa aula de geografia sobre ecossistemas, o aluno com SA que possui obsessão por animais, estuda não só os animais que habitam esses ecossistemas, mas também os outros seres vivos, a casa desses animais, etc. Sem falar, que é motivado a aprender a população desse local que derrubou as árvores para garantir a sua sobrevivência.
         As crianças com SA estão frequentemente distraídas, ocupadas com os seus pensamentos; são muito desorganizadas; apresentam dificuldades em concentrar-se nas atividades da sala,
(frequentemente, tal não se deve a falta de atenção “per si”, mas sim ao focarem-se em detalhes irrelevantes; a criança com SA não consegue discernir o que é). importante [ Happe, 1991]
E como tal a atenção é dirigida para estímulos insignificantes; apresentam grande tendência para se isolarem no seu mundo interior, de forma bem maior que o que chamamos “sonhar acordado”, e demonstram dificuldade em aprender quando em grupo. Portanto:
·         As tarefas escolares devem ser divididas, as questões precisam ser sintetizadas e o professor deve reorientar sempre que for necessário;
·         As crianças com SA devem estar sentadas nas carteiras da frente e o professor tem que fazê-lhe, com freqüência, perguntas diretas, para que a mesma possa perceber a necessidade de acompanhar a aula;
·         É importante que as crianças com SA tenham seus trabalhos de sala e tarefas de casa diminuída em sua quantidade, pois apresentam dificuldades de concentração;
·         Sente a criança com SA ao lado de outra criança que a lembre constantemente da necessidade de estar atenta as tarefas e as aulas;
·         O professor precisa estar numa batalha constante no que se refere ao encorajamento a criança com SA para que ela possa abandonar os seus pensamentos ou as fantasias e concentrar-se no mundo real. É necessária bastante paciência porque para a criança com SA o mundo interior é bem mais atraente do que a vida real.
           A maioria das crianças com SA tem uma inteligência média ou acima da média, (principalmente no domínio verbal), mas podem apresentar dificuldades na capacidade de compreender os raciocínios muito elaborados. Apresentam uma visão muito concreta e a capacidade de abstração limitada. Mesmo tendo um estilo de linguagem pedante, demonstrando uma falsa imagem do que compreendem o que estão dizendo, quando na verdade estão apenas a repetir como um papagaio o que ouviram ou o que leram. É importante:
* Proporcionar um programa educativo individualizado;
* Quando os conceitos vivenciados em sala de aula forem abstratos, é interessante que se proporcionem explicações adicionais ou tente simplifica-los;
* Explorar bastante a capacidade de memória das crianças com SA, porque as informações concretas é a área forte delas;
* Estabelecer regras claras no que diz respeito a qualidade do trabalho acadêmico dessas crianças, porque em sua maioria, as crianças com SA não se esforça em áreas que não a interessam.
           Para que muitas dessas estratégias dêem certas, é importante que sejam consideradas as características particulares de aprendizagem de cada uma dessas crianças para que o apoio necessário seja fornecido e só assim se construa as competências necessárias.
 Conclusão
             Quando pensamos em educação inclusiva, refletimos sobre todas as crianças serem incluídas na vida educativa e social da escola, porém esse pensamento só será possível quando as escolas se concentrarem na construção de um sistema que se apresente de forma estruturada para que as necessidades de cada um seja atendida e se perceba, de forma clara e objetiva, que a responsabilidade é de toda a comunidade. Correia (2003:9) alerta “a criança com Necessidades Educacionais Especiais (NEE) não se alimenta de sonhos, mas sim de práticas educativas eficazes que têm sempre em linha de conta as suas capacidades e necessidades”.
             A criança com Síndrome de Asperger pertence a este grupo diversificado dos alunos com NEE. Por ser ainda pouco conhecida, estas crianças vivem em contextos escolares onde, em sua maioria, são voltadas ao fracasso escolar e rotuladas de mal comportadas, indisciplinadas ou até mesmo, estranhas. Desta forma, o sucesso destas crianças depende de um diagnóstico precoce, de profissionalismo e principalmente de carinho, como maneira de protegê-las de rotulações.
               Este estudo representou uma nova proposta, um novo caminho que foi percorrido e que continuamente passou por reflexões, sob um olhar crítico que vai se amadurecendo de maneira que a teoria e a prática se ajudem e se completem. É importante observar que este estudo abriu novos caminhos, dicas e principalmente novas idéias para a Educação Especial e que sejam, de fato, mais uma valia nesta área. Foi interessante observar como a SA  se apresenta e quais as áreas de conhecimento de maior interesse dessas crianças e mais ainda, como pode o professor, ajudar a promover outras competências que se encontram em déficit numa criança com SA.
                O mais importante ponto de partida para ajudar estudantes com Síndrome de Asperger a funcionar efetivamente na escola é que todos que tenham contato com a criança compreendam que a criança tem uma desordem de desenvolvimento que a leva a se comportar e responder de forma diferente que os demais estudantes. Partindo dessa compreensão, a escola precisa individualizar sua abordagem para cada uma dessas crianças, não trata-los da mesma forma que os demais estudantes.
                 O próprio Asperger compreendeu a importância central da atitude do professor no seu próprio trabalho com essas crianças. Ele escreveu em 1944.
“Estas crianças frequentemente mostram um surpreendente sensibilidade à personalidade do professor... Eles podem ser ensinados, mas somente por aqueles que lhe dão verdadeira afeição e compreensão, pessoas que mostram delicadeza e, sim, humor... A atitude emocional básica do professor influencia, involuntária e inconscientemente, o humor e o comportamento da criança”.
É sempre importante retrata-la, compreende-la, definir os caminhos que possam vir a ser úteis para todos os profissionais que se vêem a par desta síndrome no campo da educação especial.
Estudar, aprofundar, compreender e atuar de forma competente são aspectos fundamentais de qualquer indivíduo, sobretudo quando nos encontramos na Educação Especial, com crianças que merecem serem felizes. É nossa responsabilidade de com estas crianças e por elas construir esse caminho.
 ABSTRACT 
If we want an inclusive school, we always many challenges in our pedagogical practices. Receive children with Special Educational Needs (SEN) classroom always cause a big impact. It is necessary to look, interpret and then intervene before the behaviors and attitudes of these children. It is not enough that teachers have only one sense or be sensitive to this situation, but mainly they have adequate training so that it can best serve these students as possible and thereby ensure equal opportunity for all instead of driving them to school failure. 
Thinking thus, this article aims to enrich the practice in special education, considering what is Asperger Syndrome (AS) as it develops the individual and what are useful strategies to overcome challenges in the classroom.
AS is an uncommon disorder in neurological development, in which present deviations and abnormalities in three broad areas: social interaction, language use for communication and characteristics of behavior and lifestyle characteristics involving repetitive or perseverative on a limited but intense of interests.
Keywords: Asperger's Syndrome. Challenge. Strategies
 REFERÊNCIAS
 BAUER. Stephen. Autismo – Síndrome de Asperger – Ao longo da vida.
Disponível em http://www.autismo_br.com.br/home/as-vida.htm - Acesso em 26/12/2008
 VASCONCELOS. Celso dos Santos, 1956 – Para onde vai o Professor? Resgate do Professor como Sujeito de Transformação, 8ª ed. São Paulo – Libertad Editora 2006.
 VASCONCELOS. Celso dos Santos, 1956 – Coordenação do trabalho pedagógico: do projeto político – pedagógico ao cotidiano da sala de aula, 7ª ed. São Paulo – Libertad Editora, 2006.
WILLIAMS. Chris. Convivendo com Autismo e a Síndrome de Asperger: Estratégias Práticas para Pais e Profissionais / Chris Williams e Barry Wrighat 2008 – São Paulo: M. Books do Brasil Editora LTDA.
WILLIAMS. Karem. Autismo – Síndrome de Asperger: entendendo estudantes com a Síndrome de Asperger – Guia para professores.