Cresci rodeada de música, livros e filmes. Minha mãe era pianista, professora de canto, regente. Meu pai nas horas vagas tenor nas inúmeras festas sacras tão comuns em Salvador, sobretudo nas novenas do Sr. do Bonfim e de Santo Amaro da Purificação. Meu tio tinha tantos livros em casa, que quase não sobrava espaço para a roupa no armário. os livros estavam espalhados por toda a casa, sala, quarto, em baixo da cama.Minha avó era fã incondicional das chanchadas da Atlântida, e me viciou de tal forma, que eu já não concebia um dia sem rir com Oscarito, Grande Otelo, José Lewgoy (um vilão maravilhoso) e companhia. Para não ficar desactualizada, minha avó guardava em um caderninho os nomes de todos os ministros a cada troca de governo. era fã de Eduardo Portela, soteropolitano como nós. Convencia minha mãe a deixar-me assistir filmes até "mais tarde", aliás, brigou por isso. E minha mãe, decidida a me apresentar a tela grande, escolheu a dedo um filme que me extasiasse. E aos cinco anos de idade, assisti Pele de Asno, de Jacques Demy, um filme de 1970, mas que estava sendo relançado em uma quinzena em homenagem ao cinema francês. Não entendi grande coisa, mas tinha música (que minha mãe amava) e Catherine Deneuve (de quem minha mãe era fã). E aquela tela enorme, enchendo-se de um colorido, parecia um caleidoscópio. Fiquei vidrada. E o termo é mesmo este. Todo dia queria ir ao cinema. Esse gosto seria em breve partilhado com outro: os livros.
Os livros entraram em minha vida gradativamente. Primeiro Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, Monteiro Lobato, Maria Clara Machado....como meu pai era um grande fã de Jorge Amado, caiu-me nas mãos Capitães da areia. Depois Mar morto. Aí veio a fase mistério Conan Doyle, Chandler, Agatha Christie...pelo meio a coleção Vagalume. Não demorou para eu dar mais uns saltos. A profusão de livros de meu tio - eram tantas as opções (de livros e temas) - levou-me a navegar por outras águas. Os gregos vieram, depois os italianos, franceses, portugueses, às vezes, lia dois, três livros ao mesmo tempo. Um completava o outro, um levava ao outro. E eu não conseguia parar. Queria viver só para ler e ver filmes. Então chegou a música. Tenho uma memória pequena de cantar uma música de Wilson Simonal com minha mãe. Vesti Azul. Em casa de minha avó brincava de roda ao som do piano que, ora minha mãe, ora minha tia tocavam. Ouvia-se muita ópera também, italiana, alemã...Renata Tebaldi, Maria Callas, Di Stefano, Caruso....Até que um dia, minha mãe me levou ao primeiro show da minha vida, acho que em 79. E em se tratando de minha mãe, ela não queria que fosse uma experiência menor, então, fomos ver Secos & Molhados. É, Secos & Molhados. E eu descobri a Música pela porta da frente.
Gostava que meus filhos tivessem conhecido a avó e a bisavó. O tio-avô. O avô. Então, tenho hoje a tremenda responsabilidade (e o imenso prazer) de mostrar esse mundo a eles. Um mundo que é vasto, vasto, vasto e não para de girar.....
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