Meu filho não
quer crescer. Confessou-me outra noite, deitado ao meu lado na cama, entre um
silêncio e outro. Sem querer ser demasiado intrusiva em seus pensamentos, quis
saber o motivo de tal preocupação, recorrente em todas as fases de sua
infância. “Não quero esquecer. Tenho medo de esquecer”. Meu filho tem saudades,
mesmo não tendo a melhor das infâncias, mesmo tendo vivido entre terapias,
exames, médicos, explicações, medicamentos. Mesmo tendo sofrido com colegas
maldosos e sem coração. Meu filho expressa um porcento do que pensa. Imagino
que tais pensamentos o façam sofrer em demasia. Digo então que existem coisas
boas em crescer e me esforço ao máximo para enfileirar pelo menos umas três ou
quatro. Sei que não basta, sei que os pensamentos ficam com ele, sei que é
duro. Crescer é duro e talvez ele tenha se dado conta disso muito antes que eu
na sua idade. Resta a mim, estar ao seu lado, amando-o amando-o e amando-o.
O menino azul
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Tido como uma desordem
autista, o Síndrome de Asperger causa perplexidade. Aparentemente ‘normais’, os
‘aspies’ têm dificuldades extremas em socializar. Para o maior especialista
nesta matéria, não se trata de uma deficiência mas sim de uma forma diferente -
e necessária - de ver o mundo.
O Síndrome de Asperger (SA) está classificado como uma desordem do espectro
autista, o que, à partida, a coloca no campo da deficiência. Partilha esta
visão?
Considero que as pessoas com Síndrome de Asperger possuem um modo de pensar
diferente da maioria, não necessariamente uma deficiência.
Como assim?
Estas pessoas possuem, habitualmente, um grande desejo de aprender e
procuram a verdade e a perfeição usando ferramentas mentais diferentes do que
seria de esperar. A sua principal prioridade pode ser a resolução de problemas,
ao invés de satisfazer as necessidades sociais e emocionais dos outros. Será
isto uma deficiência?
Como se começou a interessar por estas questões?
Em 1971, quando tinha 19 anos, trabalhei como voluntário numa escola de
ensino especial, pois já possuía algumas noções de psicologia e de
desenvolvimento infantil. Foi então que conheci duas crianças então
consideradas autistas, de cinco e dez anos, mas cujo comportamento não seguia
os padrões ‘normais’ de classificação no que diz respeito ao autismo. Entendi
que eram situações tão cativantes que decidi dedicar a minha carreira a estas
temáticas. Nos casos mais severos, o autismo é entendido como uma deficiência,
pela ausência de discurso. Tal como acontece por exemplo na cegueira, com a
ausência de visão. Mas quem apresenta Síndrome de Asperger pode ‘ver’ alguns
aspectos do mundo social. Se estiver a ler um jornal compreende os grandes
títulos e as fotografias e percebe, por exemplo, que alguém está a chorar. Por
que razão isso acontece já lhe é mais difícil entender. O mesmo acontece com
sentimentos como o ciúme, o embaraço, ou a desorientação dos outros.
Os portadores de Asperger são incapazes de ler emoções?
Nem emoções nem situações sociais mais complexas ou subtis. Mas não lhes
podemos dar um par de óculos para que possam focar todos os pormenores de
interacção pessoal. Foi o que compreendemos à medida que íamos descobrindo mais
sobre o espectro autista. O que agora chamamos de Asperger esteve sempre à nossa
espera, a única diferença é que agora temos forma de o denominar. O Síndrome de
Asperger ocorre em cada 250 indivíduos, o que significa que todos os leitores
desta entrevista ou já conhecem ou vão conhecer alguém com Asperger.
Com menos de duas décadas de classificação clínica, há quem defenda que Asperger se trata de um «autismo de alta funcionalidade». Depreendo que não subscreve esta opinião…
De facto, o SA é muito mais que um autismo com alta funcionalidade social.
Nos casos de autismo severo, é muito óbvio detectar qual é o problema e as
pessoas procedem a mudanças para responder às necessidades da pessoa. Mas se se
tiver Asperger, com sintomatologia perto do que é considerado ‘normal’ – ou
seja com expectativas de normalidade em relação à vida social, afectiva,
laboral, etc. – tal pode levar a uma infelicidade intensa.
De si mesmo ou dos outros?
De si mesmo, das pessoas que ama e com quem o ‘aspie’ se relaciona. Porque
todos os que o rodeiam têm altas expectativas. O raciocínio dos pais,
professores, companheiros ou colegas de trabalho é o seguinte: estas pessoas
são altamente competentes nas áreas tecnológicas ou artísticas. Certamente
devem também possuir competências no campo social para coisas aparentemente tão
simples como manter uma conversa polida ou ler expressões faciais. Mas o facto
é que quem tem SA não possui essas capacidades. Será capaz de inventar fórmulas
matemáticas complexas mas não percebe quando está a aborrecer de morte o
interlocutor ou não hesita em chamar «estúpido» a um professor ou ao chefe se
acha que se tratam de pessoas realmente estúpidas.
Num mundo global e de comunicação de massas, isso significa a falta de
competências sociais essenciais. Concorda?
Sim e não. Certamente que para fazer amigos, encontrar um parceiro ou manter
o emprego é necessário trabalho em equipa, algo que em que os ‘aspies’ têm
muitíssimas dificuldades. Porém, a sociedade actual está, por exemplo,
permanentemente sedenta de novas tecnologias de informação. Estas competências
são cada vez mais valorizadas e aí os portadores de Asperger e as suas
capacidades podem ter uma grande palavra a dizer. Atenção: os ‘aspies’ podem
não ser apenas génios de computação. Muitos destacam-se em variados campos
científicos e tecnológicos ou desenvolvem-se no campo artístico, por exemplo
como pintores, escritores, actores ou realizadores de cinema. O espectro vai de
Da Vinci, a Mozart, a Van Gogh ou a Einstein. E a muitos e muitos milhares de
pessoas anónimas, que nunca foram diagnosticadas como portadoras de Asperger.
O mundo seria bem menos rico se não tivessem havido ‘aspies’ ao longo da
história?
Certamente. Por exemplo, é bastante provável que o gravador com que está a
registar esta entrevista tenha sido concebido por uma pessoa com SA (risos)!
Mas essa mesma pessoa não conseguiria ‘conceber’ um relacionamento
afectivo?
Naturalmente que não, pois os relacionamentos não se movem pelas leis da
lógica que lhes são tão caros. Na relação com os outros não se consegue
desenhar um esquema numa folha de papel e seguir as indicações visuais e
lógicas. É uma questão emocional e inconstante. É aí que os ‘aspies’ sentem
tantas dificuldades e é aí que têm de ser compreendidos e auxiliados.
Há quem diga que uma boa estratégia para lidar com o SA é fazer com que a
criança aprenda mecanismos sociais que possa seguir. Quase como um «mapa de
socialização» que lhe servirá enquanto cresce e na idade adulta.
A abordagem não pode ser medicamentosa ou cirúrgica. A fórmula tem de
assentar na aprendizagem. Os ‘aspies’ têm de aprender a fazer amigos, a arte da
conversação e muitas outras ferramentas de socialização. Se esse processo
arrancar bastante cedo é possível que aprendam com muito êxito. Temos de lhes
explicar a lógica de cumprimentarmos as pessoas, o facto destas poderem estar
infelizes mas sorrirem à mesma, em suma todas as contradições humanas que os
portadores de SA acham tão confusas. E dizem-no claramente: «as pessoas emitem
mensagens com os olhos e eu não as compreendo!», é uma expressão que oiço
muitas, muitas vezes. Os ‘aspies’ compreendem a linguagem dos computadores, da
música, da matemática, mas os níveis de linguagem subjectiva são-lhes
completamente estranhos.
Por que razão sentiu a necessidade de criar o seu sistema de critérios de
identificação de Asperger (ver caixa)?
Os sistemas anteriores de diagnóstico e classificação foram muito úteis
para uma primeira fase mas, em meu entender, não captam a verdadeira essência
do SA. Para além disso, foram concebidos muito antes da termos atingido a
quantidade e qualidade de conhecimento de hoje. Assim, tendo conhecido cerca de
cinco ou seis mil pessoas com Asperger, de muitas faixas etárias, condensei
toda essa informação numa metodologia que nos permite chegar a um bom nível de
entendimento de cada caso. Ou, pelo menos, acredito nisso (risos)! Necessitamos
de instrumentos para identificar estas situações em escolas e no seio da
família, para que possamos determinar o que se passa, para compreender e ajudar
as crianças. Este é o meu objectivo.
Trata-se de um ‘mapa de estrada’ para professores e famílias?
‘Mapa de estrada’ é uma boa expressão. De facto, destina-se a ajudar a
compreender onde vamos, como devemos lá chegar e do que vamos necessitar
durante o caminho. E para desfrutar da viagem.
É possível desfrutar da viagem em conjunto com um portador de SA?
É possível, desde que, no final, haja sucesso na forma como a criança, o
jovem, o adulto, é capaz também de desfrutar da vida. Não escondo que não é
fácil, vão surgir muitas dificuldades e problemas. Por exemplo, os níveis de
ruído do mundo de hoje. Quem tem Asperger é muito sensível ao volume sonoro e,
por vezes, até o barulho das conversas se torna muito perturbador e impossível
de suportar. Os problemas decorrentes do SA não acontecem só no campo social
mas também no campo sensorial.
Isto porque, na base do Síndrome de Asperger estão questões neurológicas?
Ainda não existem certezas absolutas, mas acreditamos que o síndrome surge
como resultado de factores neurológicos que afectam o desenvolvimento cerebral
e não devido a privações emocionais ou outros factores psicogénicos.
Habitualmente, os nossos cérebros dão prioridade à socialização: neste momento,
ao ouvir-me, o seu cérebro está a captar todos os sinais que acompanham o som
da minha voz e a minha expressão facial. Se não se é bom nisso, como nos casos
de SA, então tudo o mais é potenciado, por vezes até níveis insuportáveis para
a pessoa. Em situações normais, o som do piano [a tocar durante a realização da
entrevista] é irrelevante para o decorrer da nossa troca de impressões, porque
ambos conseguimos ‘baixar o volume’ das situações que estão a ocorrer em
paralelo. Quem tem Asperger não consegue ‘baixar o volume’: coloca tudo ao
mesmo nível e sente-se assoberbado com a quantidade de informação que lhe
chega. Pura e simplesmente, não a consegue gerir.
Isto acontece em todos os momentos, ou os ‘aspies’ têm a capacidade de
relaxar?
Têm a capacidade de relaxar por si mesmos, em paz e sossego. É disso que
necessitam. Mas, por exemplo, onde é que se arranja paz e sossego no quotidiano
escolar?
O conceito de «cegueira emocional» pode aplicar-se aos portadores de
Asperger?
Eu não diria «cegueira». Ao invés, diria que lhes escapa algumas coisas do
campo emocional. Os ‘aspies’ podem ser bastante intuitivos em relação ao
ambiente emocional em que se encontram, mas podem não saber por que razão
alguém está a experimentar determinado sentimento e o que fazer para o encarar
ou fazer parar. Mais uma vez: há confusão, não cegueira.
É por isso que os especialistas dizem que quem tem SA consegue amar, não
consegue é fazer sentir aos outros que os ama.
Certamente. São capazes de dizer que amam o pai ou a mãe uma única vez e
passar o resto da vida sem repetir essa declaração. Na lógica que lhes é tão
querida, não sentem necessidade de repetir o que o outro já sabe.
A personagem Forrest Gump podia ser classificada como portadora de
Asperger?
Absolutamente. Trata-se de uma história maravilhosa, onde o protagonista
tem uma capacidade fantástica de enfrentar os desafios que a vida lhe coloca,
sem perder a sua candura e a sua bondade. Muitos dos portadores de Asperger não
sentem a dor da mesma maneira que Forrest Gump, nem são capazes de segurar um
camarada ferido nos braços como lhe acontece no Vietname. O que só vem provar
que não existem fórmulas nem exemplos estáticos neste campo. Mas acredito que o
argumento que deu origem ao filme foi baseado provavelmente em alguém com
Asperger, mesmo sem ser diagnosticado.
Há quem diga que os portadores de Asperger são demasiadamente honestos para
o mundo...
São! E os primeiros a sofrer com essa honestidade a toda a prova são os
mais chegados: família, amigos e colegas. Se, por exemplo, uma mãe, em frente
ao espelho pergunta: «filho, estou bonita hoje?», se ele achar que não está
vai-lhe dizer isso mesmo, sem sequer equacionar se está ou não a magoá-la.
Quando aprendem uma piada, podem não se aperceber que não é mais adequada para
contar à avó durante o chá das cinco ou passam a vida a contá-la às mesmas
pessoas. Pois se resultou da primeira vez, pode resultar sempre, certo?
Os professores e os pais que têm de viver com uma criança Asperger podem
aprender a fazê-lo da forma mais feliz para todos. Até que ponto é importante a
sociedade fazer o mesmo?
É essencial. De outro modo, os ‘aspies’ sentem-se extremamente infelizes. O
problema deles não é ter Asperger, são as atitudes dos outros. O que dói é ser
vítima de bullying na escola porque se é diferente, despedido no emprego porque
não se é bom a trabalhar em equipa ou porque se fez um comentário verdadeiro
sobre o chefe, mas que não é socialmente aceitável. A chave é reconhecer que
aquela pessoa é diferente e procurar guiá-la, ao invés de a criticar.
E como se consegue isso?
Através de entrevistas como esta (risos)! Dando oportunidade ao grande
público de conhecer estas situações e a partir do momento em que todas as
pessoas compreendam que a vida dos ‘aspies’ pode ser muito mais feliz. Sim, nós
podemos ajudá-los a comportar-se adequadamente em sociedade – seja o que for
que tal signifique – mas se as pessoas perceberem exactamente o que se passa
com aquele indivíduo tão especial, a vida tornar-se-á mais fácil. Para todos.
Um bom princípio é aprenderem a descontrair junto de uma pessoa com Asperger.
O mundo seria um lugar melhor ou pior se a ciência conseguisse eliminar o
Síndrome de Asperger?
Seria desastroso! A maior parte das pessoas passam a esmagadora maioria do
tempo a socializar, mas os portadores de Asperger são bem mais criativos do que
a população em geral: concebem coisas. A cura para o cancro será provavelmente
descoberta por alguém com Asperger! Este tipo de capacidades são-nos
absolutamente necessárias. Nós necessitamos de variedade enquanto espécie, de
outro modo entra-se num totalitarismo de raça superior. A diversidade é um
trunfo biológico de grande importância. Precisamos de pessoas com Asperger.
Durante a sua estadia em Portugal [para o congresso da Fundação Renascer]
contactou com pessoas que se dedicam não só à temática de Asperger como à das
perturbações autistas em geral. Em sua opinião, que caminho há ainda a trilhar?
Um caminho muito longo! Não apenas para as crianças e jovens como também
para as suas famílias. Esta situação já é suficientemente difícil para que
tenham ainda de discutir com as autoridades sobre a classificação do síndrome e
muitas outras questões. Como se diz na língua inglesa, é «adding insults to
injury» (juntar insultos à adversidade)! Quando uma pessoa é cega, os poderes
públicos não hesitam em prestar a ajuda considerada necessária, tanto a ela
como aos que lhe são próximos. Tal não acontece nos casos de Asperger e é aí
que as coisas têm de mudar. O valor de uma sociedade é medido na qualidade da
ajuda prestada a quem dela necessita, não pelo seu produto interno bruto ou
pelo número de carros de luxo a circular nas estradas. É a forma como tratamos
quem está em desvantagem que nos deve classificar enquanto sociedade. A visão
que a maior parte das pessoas tem – incluindo as autoridades competentes, em
muitas situações – é a de que as atitudes de uma criança com Asperger se devem
a mimo em excesso ou podem ser ‘reparadas’ facilmente. Eu gostava que fosse
assim tão simples! No que diz respeito a recursos, o poder político só tomará
uma atitude se os cidadãos a exigirem. Repito: é preciso apoio, não críticas. O
SA não é causado por erros na educação das crianças ou por não serem amadas.
Elas não se isolam por falta de amor. Dizer isso é um profundo insulto para as
famílias, em especial para os pais.
Por que razão os rapazes são mais afectados pelo SA?
Ainda não conseguimos determinar porquê. Em termos gerais, os rapazes são
menos competentes na socialização e as raparigas tendem a ser mais bem-educadas
e mais atentas às convenções sociais. No entanto, a incidência de SA é muito
mais comum nas raparigas do que julgávamos ao início.
Este é um fenómeno em crescimento a nível global?
Está a tornar-se mais facilmente reconhecido. Ou seja, não sabemos o que
está a aumentar, se os casos se o diagnóstico. Foi feito recentemente um estudo
em Portugal sobre a incidência do autismo que trouxe à luz um grande número de
casos nos Açores. Para além das questões neurológicas, parece haver diferenças
marcadas pela geografia. Por vezes, as pessoas com personalidades isoladas
tendem a viver em ilhas e existe uma tendência genética que vai multiplicar-se
na população. É preciso continuar a procurar conhecer as situações, elaborar
novas ideias e aplicá-las.
QUEM É TONY
ATTWOOD
Tony Attwood, psicólogo clínico, é doutorado pela
Universidade de Londres. e considerado o mais conceituado especialista mundial
em Síndrome de Asperger. Residente na Austrália, é professor na Universidade de
Griffith e viaja pelo mundo inteiro, dinamizando conferências e seminários de
divulgação e formação para pais, professores e todos os interessados em
compreender melhor os portadores de SA. Baseado no trabalho que desenvolve para
as apresentações internacionais, Tony Attwood tem publicadas várias obras,
entre as quais «O Síndrome de Asperger. Um guia para pais e profissionais»
(Verbo) e «Learning and Behaviour Problems in Asperger Syndrome» (sem tradução
portuguesa).
O QUE É O
SÍNDROME DE ASPERGER
Em 1944, Hans Asperger, um pediatra australiano,
descreveu pela primeira vez um conjunto de características apresentadas por
algumas crianças que, somadas, formam um síndrome que tomou o seu nome. Em
1994, a Associação Psiquiátrica Americana criou uma lista de sinais
identificativos que permitiram classificar o Síndrome de Asperger como uma
desordem do espectro autista.
FORÇAS, NÃO
FRAQUEZAS
E se a definição do Síndrome de Asperger fosse feita
através das capacidades e talentos dos seus indivíduos, ao invés das suas
fragilidades? É isso mesmo que Tony Attwood propõe, numa lista de critérios de
descoberta dos ‘aspies’:
• relações pessoais caracterizadas por uma perfeita
lealdade;
• independência de preconceitos sexistas ou
geracionais;
• discurso isento de falsidades ou conceitos
politicamente correctos;
• capacidade de seguir as próprias ideias ou
perspectivas, apesar das provas em contrário;
• consideração por pormenores e detalhes que aparentam
pouco interesse para a maioria;
• capacidade de aceitar argumentação sem ideias
pré-concebidas;
• interesse nas verdadeiras contribuições para a
conversa, sem perder tempo com superficialidades ou trivialidades;
• conversação sem objectivos pouco claros ou manipulação;
• perspectivas originais, e por vezes únicas, na
resolução de problemas;
• memória excepcional para dados ignorados por todos
os outros indivíduos;
• clareza de valores e poder de decisão inalterado por
factores políticos e financeiros;
• sensibilidade apurada para experiências e estímulos
sensoriais;
• maiores hipóteses de prosseguir carreiras académicas
e/ou científicas.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
CAPÍTULO PRIMEIRO
DE UMA IDÉIA MIRÍFICA
Conta um velho
manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma
igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado
com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem
cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes
divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que
não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater
as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois,
uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra
breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas,
bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo
universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto
as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não
acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só
um de negar tudo.
Dizendo isto,
o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e
varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse
consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que
abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
CAPÍTULO II
ENTRE DEUS E O DIABO
Deus recolhia
um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o
recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os
olhos no Senhor.
— Que me
queres tu? perguntou este.
— Não venho
pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do
século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a
explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho;
dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam
com os mais divinos coros...
— Sabes o que
ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas
provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu
fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar
uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado
da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a
vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me
não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
— Vieste
dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes
razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres.
Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que
venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é
preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua
desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo
sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse
breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas
recolheu o riso, e disse:
— Só agora
concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes,
filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo
rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja,
e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
— Velho
retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem.
Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as
anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram
aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro
santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que
esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha,
— ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias
à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por
exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega
piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais
altos...
Nisto os
serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no
Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és
vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos
moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade
para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas
as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse
mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos
disse que não.
— Depois de
uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se
numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com
a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum
público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu
sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta
morte?
— Nego tudo.
A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um
misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e
sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as
virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o
Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os
serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos.
O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um
raio, caiu na terra.
CAPÍTULO III
A BOA NOVA AOS HOMENS
Uma vez na
terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula
beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia
aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites
mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a
noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito
contavam as velhas beatas.
— Sim, sou o
Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos,
terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da
natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens.
Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele
nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos
darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que
falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes,
congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram,
o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de
um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era
umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele
que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as
naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e
assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com
a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a
melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo
disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons
versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se
lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o
fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou
histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que
era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia,
do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia
substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo,
locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das
mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude
principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a
suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas
corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de
eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar
as perversas e detestar as sãs.
Nada mais
curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o
braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens
são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era
exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos
os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a
da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de
lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a
todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o
teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em
todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu
voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua
própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no
contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem
vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o
sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao
caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não
se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois,
mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a
venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e
subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das
injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a
calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária,
ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa
da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois
equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram
condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e
pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi
logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em
simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar
a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade
humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova
instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e
negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em
alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de
próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e
letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve
a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia
amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa
espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o
amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal
explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu
a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns;
mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que
acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
CAPÍTULO IV
FRANJAS E FRANJAS
A previsão do
Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de
algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham
alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a
instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região
do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que
não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém,
longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas,
praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas
algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a
comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito
católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas;
vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os
fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo
rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta
assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que
lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista
do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das
drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de
camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada
de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali
roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo
e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito
beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um
calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que
possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era
a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava
são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações
aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas
confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse
nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o
caso era verdadeiro.
Não se deteve
um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do
espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu,
trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno.
Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu,
não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
— Que queres
tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de
veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição
humana.
Machado de Assis
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
“É proibido falar de política”, diz um letreiro pregado na parede da barbearia.
- Quem te autorizou a pôr ali aquele letreiro? - perguntou o alcaide, apontando o aviso.
- A experiência – respondeu o barbeiro.
- Aqui só o Governo tem o direito de proibir seja o que for – disse. – Estamos numa democracia.
(A Hora má: O veneno da madrugada, Gabriel Garcia Márquez)
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
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